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23 novembro 2003

FINIS 

O passado é o prólogo.

02 outubro 2003

... 

Este blog entrou oficialmente em pousio!

30 setembro 2003

A capa e o Super-Homem 

A capa do DN de hoje é muito muito preocupante. Ver um jornal "de referência" como o velho DN ser atingido pela mais baixa das demagogias justiceiras mostra que o "24 Horas" tem seguidores. Será que a seguir vão pedir a pena de morte para os acusados?

Rui Teixeira não é nem o Super-Homem, nem o Salvador da Pátria. É um simples juiz de instrução que, pelos vistos e de acordo com o Tribunal Constitucional, também se engana. Neste caso sempre em desfavor dos mesmos!

29 setembro 2003

Informalidade 

O já muito famoso relatório da McKinsey sobre a produtividade portuguesa, ou a falta dela, aponta a informalidade (o não cumprimento das obrigações por parte dos agentes económicos) como principal factor que emperra o crescimento nacional. Não é a produtividade dos preguiçosos trabalhadores portugueses (ferozmente combatida por esse génio da solidariedade laboral, o Dr. Bagão) nem os malvados funcionários públicos (agora metidos na ordem pela Dra. Manuela F. Leite):

A informalidade deve ser entendida como o conjunto de distorções ao enquadramento competitivo e empresarial da economia resultantes da evasão por parte de empresas e agentes económicos a um conjunto de obrigações. Não se trata apenas da existência de fenómenos de “economia paralela”, mas de um conjunto mais amplo de comportamentos frequentemente verificados, designadamente os seguintes:
Evasão fiscal, nomeadamente a impostos sobre o rendimento das empresas e particulares (IRC e IRS) e ao imposto sobre o valor acrescentado (IVA);
Evasão a obrigações sociais, como o não cumprimento dos pagamentos devidos à Segurança Social ou o não pagamento de níveis de salário mínimo;
Evasão a normas de mercado, designadamente o não cumprimento de exigências de níveis mínimos de qualidade dos produtos, de normas de segurança, de restrições ambientais, de direitos de propriedade, etc.

Esta barreira tem impactos profundos na economia, muito para além dos habitualmente discutidos nas receitas do Estado e da Segurança Social:

Trabalho retido em actividades pouco produtivas. Agentes económicos menos eficientes detêm uma presença de mercado (quota de mercado) superior à que obteriam se não beneficiassem das vantagens de preço e margem permitidas pela evasão fiscal e às obrigações sociais. Por exemplo, no sector do Retalho alimentar, os retalhistas informais beneficiam de seis pontos percentuais (cerca de 50 por cento da margem) suplementares em termos de rentabilidade das vendas face aos seus concorrentes formais;
Insuficiente investimento em equipamento e outro capital necessário à maior produtividade do trabalho, em resultado da distorção no custo relativo dos factores (tornando-se o factor trabalho mais barato pela evasão às normas laborais e aos compromissos de Segurança Social).
Distanciamento das melhores práticas domésticas e internacionais por receio ou incapacidade de convivência dos agentes económicos internacionais com as práticas de informalidade e com a falta de
transparência vigente no mercado. Por exemplo, no sector da Construção residencial, os players internacionais detêm uma quota de mercado residual, representando menos de três por cento do total do mercado;
Dificuldade em estabelecer as condições e dimensão necessárias à inovação e disseminação de melhores práticas, uma vez que os agentes informais evitam o crescimento ou relacionamentos profundos com
parceiros ou financiadores, como forma de mais facilmente evitarem o escrutínio externo de práticas de informalidade.


Será que os patrões portugueses, sempre tão expeditos no acto de despedir, reduzir e falir, tiveram acesso a este relatório?

27 setembro 2003

A Marcha Branca 

Estive o dia quase todo em Lisboa. Não fui à Marcha Branca. Subscrevo na totalidade os posts de Pacheco Pereira sobre este assunto:

Não vou, não concordo. Cada um é livre de se manifestar como entende, mas este tipo de iniciativas unanimistas são um poderoso caldo de cultura para o populismo. É um caminho perigoso.


Volto já 

Afazeres profissionais, a mudança para uma casa nova e alguma desinspiração para postar vão reduzir consideravelmente a “actividade editorial” deste blog.

O Portugal e Arredores segue dentro de momentos...

25 setembro 2003

Edward Said (1935-2003) 

Power, after all, is not just military strength. It is the social power that comes from democracy, the cultural power that comes from freedom of expression and research, the personal power that entitles every Arab citizen to feel that he or she is in fact a citizen, and not just a sheep in some great shepherd's flock.

Edward Said.

24 setembro 2003

Bloguítica Internacional 

Acabou? De acordo com o último post do Paulo Gorjão parece que sim! A lógica das audiências ditou este desfecho.

Quem fica a perder, para além dos leitores fiéis do primeiro Bloguítica, é a própria blogoesfera portuguesa. Talvez em Outubro os alunos do Paulo o obriguem a regressar às lides bloguíticas internacionais! Para não perder a esperança, o link vai continuar aqui na coluna do lado.

Adriano Moreira 

Diz o Mata-Mouros que o Portugal e Arredores se regozijou com a opinião de Adriano Moreira (AM). É verdade! É sempre agradável ouvir opiniões que – vindas de outros quadrantes – coincidem com as nossas.

É também verdade que AM não pode ser considerado um “esquerdista”. Não vou tentar definir a sua posição ideológica (Convervador? Nacionalista?), mas penso que dificilmente se pode comparar a personagens que viraram literalmente a casaca como Veiga Simão. AM não renega as suas origens e o seu passado (foi Ministro de um ditador), mas saiu do Governo, em discordância com a política ultramarina de Salazar, em 1963, com o mérito de ter defendido uma visão de autonomia progressiva para as então colónias. Curiosamente, nessa altura estava mais alinhado com a política norte-americana da Administração Kennedy do que com as opções africanas do “Botas”! Será que AM é assim tão “anti-americano”?

Quanto ao facto de ser “gostado” pela esquerda bem pensante (o que é a esquerda bem pensante?) é lá com ele. Não creio que emita as suas opiniões para ser aplaudido por qualquer esquerda. Bem ou mal pensante! Pela parte que me toca AM não é nenhuma referência ideológica. Mas posso considerá-lo como alguém que respeito intelectualmente. Teve o mérito de formar a primeira escola de relações internacionais de Portugal e de ser respeitado, enquanto professor e também enquanto político, pela esquerda e pela direita.

AM limitou-se a criticar “o unilateralismo republicano” e a defender o “multilateralismo”. Será assim tão difícil perceber que esse “unilateralismo” está a dar péssimos resultados em todo o mundo? Será assim tão difícil perceber que Bush Jr., e aqueles que o rodeiam, estão finalmente a ver que fizeram asneira da grossa no Iraque e que estão a tentar emendar a mão chamando a ONU, a França e a Alemanha para ajudar a desfazer o imbróglio onde se meteram? Será assim tão difícil perceber que Bush Jr., acossado por eleições, um défice monstruoso e uma opinião pública interna cada vez mais hostil, vai ter que regressar ao tão odiado "multilateralismo"?

Vaticanices 

Notícia do Público de hoje:

O Vaticano prepara-se para publicar, até ao fim do ano ou no início de 2004, um documento que consagra uma lista de 37 actos que passam a ser interditos nas celebrações litúrgicas, entre os quais bater palmas, dançar, ter raparigas como acólitas (a auxiliar os padres durante a missa) ou ler outros textos que não os da Bíblia e dos missais. Também a celebração conjunta, não autorizada, com ministros de outras confissões - como os protestantes - fica interdita. (...)

Acho muito bem! Esta proposta da Congregação para a Doutrina da Fé, liderada pelo famoso Cardeal Ratzinger (que até tem um clube de fãs), só visa promover a moralidade e os bons costumes dentro da Santa Madre Igreja que, como se sabe, tem andado arredada de tais práticas desde que se soube que uma parte dos seus pastores se entretia a comer criancinhas (proibir as raparigas acólitas não vai evitar as tentações pecaminosas dos senhores priores)!

Eu até me atrevo a ir mais longe e sugiro, desde já, algumas medidas ao Inquisidor do Vaticano:
1- proibir as mulheres de assistirem à missa juntamente com os homens (consultar o Mullah Omar e Osama bin Laden);
2- obrigar as mulheres a andarem todas cobertas – não queremos cá pernas ao léu e mamas de fora – antes, durante e depois da Eucaristia (consultar novamente o Mullah Omar e Osama bin Laden);
3- proibir as mulheres de irem à escola e de trabalhar;
4- proibir a televisão, a rádio e a música em geral que, como se sabe, são obra do Mafarrico;
5- reinstalar o Tribunal do Santo Ofício (falar com Tomás de Torquemada) e promover alguns autos-da-fé;
6- voltar a considerar todos os judeus como culpados da morte de Jesus Cristo e a seguir queimá-los (falar com Hitler);
7- promover algumas Cruzadas à Terra Santa para expulsar os infiéis (falar com S. George W. Bush);
8- promover S. George W. Bush e S. Silvio Berlusconi a Defensores da Fé Cristã (esquecer temporariamente que o Bush é protestante);
9- considerar os protestantes como apóstatas que merecem a morte por lapidação;
10- considerar os agnósticos, os ateus, os comunistas, os homossexuais e outras aberrações da Natureza como secreções do Diabo e enviá-los directamente para a fogueira sem direito a passagem pelo Tribunal do Santo Ofício (falar com a Opus Dei).

23 setembro 2003

Derrotas 

Em poucos meses Portugal não conseguiu ganhar três cargos importantes na cena mundial. Primeiro foi o Embaixador José Cutileiro que viu a sua candidatura ao cargo de Governador Internacional do Kosovo preterida em favor de um finlandês. Depois foi o Embaixador Seixas de Costa que recusou sair de Viena para ser o próximo Representante da U.E. no Médio Oriente. Finalmente António Vitorino não obteve o consenso necessário, isto é, não agradou aos falcões americanos, para ser Secretário-Geral da NATO.

Sobre Cutileiro e Seixas da Costa, o Notas Verbais já deixou algumas pistas para se compreender o sucedido. Parece que numa (Cutileiro) as Necessidades não fizeram o suficiente para o candidato ganhar o posto. Noutra (Seixas), guerras internas e ódios antigos ditaram o desfecho. Edificante!

Quanto a Vitorino talvez seja mais útil por cá (Mário Soares já disse que ficou radiante!). Ferro e Durão que se cuidem.

Resta-nos Ramiro Lopes da Silva – ainda se lembram dele? – que lá continua em Bagdade a chefiar interinamente a ONU local. Felizmente não precisa do aval português senão, pelos exemplos anteriores, já tinha sido substituído.

O Multilateral 

Para os admiradores do Bush Jr. e das suas trapalhadas por esse mundo fora recomendo a excelente crónica de hoje no DN de Adriano Moreira (um suspeito "esquerdista") intitulada Voltar ao multilateralismo. Fica este pequeno excerto:

Por muito cuidada que seja a política de qualquer Governo destinada a afirmar e salvaguardar a imagem internacional com que procura conciliar o respeito de aliados e adversários, e a adesão do eleitorado que o conduziu ao poder, isso não a dispensa de uma instância crítica externa, que progressivamente corresponda à opinião pública mundial.
Na circunstância actual, a responsabilidade assumida unilateralmente pelos EUA para lidar com o que chama eixo do mal, descuidou tão profundamente a sua dependência daquela instância crítica, que não parece ter incluído no processo decisório qualquer previsão sobre os efeitos colaterais que iria provocar (...)

(...) os efeitos colaterais do errado unilateralismo republicano parecem encaminhar-se finalmente no sentido de ser possível à comunidade internacional ajudar os EUA a corrigir o método.


22 setembro 2003

Dia com carros 

Alguém me explica porque é que hoje é o “Dia Europeu sem carros”? Em Lisboa está tudo na mesma. Mesmo na zona do Bairro Alto, onde supostamente o dia sem carros era para valer, lá estava a habitual fila de viaturas para entrar no “recinto murado”.

Das duas uma: ou o dia sem carros é para levar a sério (e não há carros para ninguém), ou então mais vale acabar com as boas intenções – que não levam a nada – e com o respectivo “dia”.

Diplomacias 

O Notas Verbais é, cada vez mais, um verdadeiro blog de serviço público à diplomacia portuguesa. Não duvido que seja lido com muito interesse – e alguma raiva – nos salas do Palácio das Necessidades e não só!

Sobre a recusa de Francisco Seixas da Costa em ocupar o lugar de Representante Especial da UE para o Médio Oriente acho que ficou quase tudo dito!

Vitorino e a NATO 

Parece que Rumsfeld, the Warlord, vetou o nome de António Vitorino para o cargo de Secretário-Geral da NATO. De acordo com fontes norte-americanas Vitorino não agradou a Rumsfeld porque é "demasiado brilhante, demasiado europeísta e demasiado independente". Com tal qualificação o Comissário português só pode ficar lisonjeado. Preocupante era se Vitorino tivesse sido elogiado pelo patrão do Pentágono!

Em sua substituição foi escolhido um obscuro e dócil holandês que, com toda a certeza, será inteligente, disciplinado e apagado. Mas se Rumsfeld queria alguém da sua confiança porque é que não escolheu o seu amigo Portas? Dificilmente encontraria um Secretário-Geral mais fiel!

Ouvir 

O Crítico Musical que me perdoe a ousadia (sobretudo vinda de alguém que admite ser “duro de ouvido”) e a tentativa de fazer crítica musical (é mesmo só tentativa!) mas existem duas peças musicais que me deixam completamente deslumbrado. A primeira é o Air de Bach; e a segunda é o Adagio for Strings in G Minor de Albinoni.

Já agora parabéns pelo post Elitismo? Ou o problema das entradas livres. Magnífico!

Pousio 

O Portugal e Arredores ficou um fim-de-semana inteiro sem ser alimentado! Tudo graças a uma conspiração informática liderada pelo meu magnífico computador e pela respectiva ligação à internet. Quando o computador não bloqueava era a ligação à internet que ia abaixo. Só tive tempo para ler uns mails. A continuar assim o meu computador não terá um fim muito feliz. Já faltou mais para eu o atirar pela janela!

19 setembro 2003

Um Presidente, dois Presidentes 

Durante uma conferência de imprensa com o Rei Abdullah da Jordânia, Bush Jr. afirmou: “Mr. Arafat has failed as a leader” e aconselhou os palestinianos a encontrarem um novo Presidente que trabalhe pela paz!

Claro que o argumento também pode ser utilizado ao contrário: “Mr. Bush has failed as a leader”, pelo que aconselho os americanos a encontrarem um novo Presidente que trabalhe pela paz!

Silvio, again 

O Primeiro-Ministro de Itália afirma que a “Depois da queda do Muro de Berlim, a esquerda que tinha sido derrotada pela história deveria ter sido levada a julgamento, pelo menos pela cumplicidade moral com os crimes dos regimes comunistas.” Supostamente a esquerda italiana e não só terá ajudado o esclerosado regime soviético, e os seus acólitos do leste europeu, em maléficas campanhas contra o Ocidente.

Mais à frente, quando lhe perguntam se terá subornado um determinado juiz, responde Silvio: “Porque é que o meu grupo haveria de pagar a Squillante se ele não tinha nas mãos um único caso meu?” A contrario sensu, se o tal juiz tivesse o processo de Silvio nas mãos teria sido generosamente subornado!

Silvio Berlusconi é um daqueles casos típicos de esquizofrenia anti-esquerdista e mania da perseguição. Tudo o que de mal acontece no mundo é culpa da esquerda. Só faltou dizer que comem criancinhas ao pequeno almoço! E que Mussolini afinal até era boa pessoa...mas...esperam lá....isso ele já disse!

Será que daqui a uns tempos a direita mais trauliteira e bafienta de Portugal, admiradora profunda dos métodos “à Berlusconi”, vai afirmar que o Dr. Salazar era um santo?

9/11 em filme 

Ainda "O meu 11 de Setembro" em Ouagadougou. O Para Mim Tanto Faz enviou-me um link do filme 11'09''01.

Diz o "Para mim Tanto Faz":
São 11 realizadores que fizeram, cada um, um pequeno filme de 11 minutos sobre o 11 de Setembro e tem lá um do realizador do Burkina Faso, Idrissa Ouedraogo.
Este pequeno filme começa naquele dia 11 de Setembro e retrata o odisseia de um rapaz que tem a mãe doente e vai vender jornais para conseguir dinheiro para os medicamentos. Dias depois, o governo dos EUA anuncia que vai dará uma recompensa de 25 milhões de dólares por Bin Laden. O pequeno rapaz e os seus amigos encontram então Bin Laden a passear-se pelas ruas de Ouagadougou. E decidem capturar Bin Laden para depois reclamarem a recompensa. Mas Bin Laden embarca num avião e os rapazes não conseguem convencer a polícia da sua presença no Burkina Faso e ele vai-se embora. E com ele, o dinheiro que tantos problemas poderiam resolver àquelas crianças. Na cena final, à medida em que o avião com Bin Laden se afasta, o pequeno olha com tristeza e diz: "Bin Laden volta, precisamos de ti".


Acho que hoje vou passar pela FNAC (a do Chiado) e descobrir se existe alguma cópia deste(s) filme(s) em Lisboa! Ouagadougou revisited.

Recomendação 

De leitura obrigatória o texto do Terras do Nunca "Fantasias, quais fantasias?"

18 setembro 2003

A Turquia e a Europa 

A recente viagem do Presidente Sampaio à Turquia motivou três posts do Bloguítica Nacional. No terceiro post fazem-se algumas considerações acerca das afinidades entre Portugal e a Turquia. Concordo que, durante a visita oficial, o Presidente da República não poderia dizer outra coisa senão que Portugal apoia as pretensões turcas. Mas creio que se trata de mera linguagem de cortesia para com os anfitriões. Será que Portugal tem assim tantas afinidades com a Turquia? Não me parece.

Em termos territoriais e populacionais (70 milhões de habitantes) a Turquia estará no “clube dos grandes” e alinhará com estes para obter mais poder na Comissão, no Conselho e no Parlamento Europeu. Em termos económicos (tem um PIB per capita de cerca de 7.000 Euros) é obviamente um concorrente de Portugal: mão de obra barata (ainda mais barata que nos países da Europa central e oriental que vão aderir nos próximos anos), algumas riquezas naturais e, sobretudo, uma posição estratégica que lhe permite controlar parte dos oleodutos do Mar Cáspio e das Repúblicas do Cáucaso.

Mais à frente o Bloguítica pergunta “Se nao se deixar a Turquia aderir, quais sao as alternativas? Marginalizar um pais com uma posicao geografica de importancia fundamental para o Ocidente?”

A 3 de Setembro postei acerca da possível entrada da Turquia na União Europeia:

A Turquia bem pode perorar sobre a sua utilidade estratégica e económica. Mas a situação internacional não a favorece: as relações com Washington já conheceram melhores dias (com bases no Iraque o território turco perdeu a importância que os americanos lhe atribuíram durante a Guerra Fria) e a Europa está mais preocupada com défices e reformas institucionais.

Com este cenário, e perante os “chega para lá” da Europa unida, o que pode Ancara fazer? Aproximar-se à Rússia? Altamente improvável. Unir-se às frágeis repúblicas do Cáucaso? Seria meter-se em mais sarilhos. À Turquia não resta outra alternativa senão esperar pacientemente que a deixem entrar no clube cristão de Bruxelas. Quem sabe daqui a uns 10 anos. Por muito que os actuais 15 o neguem, o factor religioso ainda conta!


A Europa não irá marginalizar a Turquia. As generosas migalhas de Bruxelas continuarão a seguir para a península da Anatólia. Mas duvido muito que nos próximos anos surja a tão desejada oportunidade para Ancara. A Turquia vai esperar. Porque não tem outra alternativa!

17 setembro 2003

Recomendações 

Em dia de pouca ou nenhuma inspiração para postar limito-me a recomendar alguns posts de blogs alheios:

Do Crítico Musical "Supresas pós viagem" sobre a dinastia dos Bragança.

Do Abram os Olhos "Barbie says fuck you". Brilhante!

Do Notas Verbais "O «peso» de Portugal em Bruxelas", que é como quem diz Porque é que Portugal não manda nada em Bruxelas.

Do Portugal dos Pequeninos "Big Brother em casa". O retrato de uma família portuguesa!

Do Albergue dos Danados "O alcance das vozes". Ainda o JJP, os neurónios do JPP, o P. de Lima e o seu chefe Paulinho!

Da Montanha Mágica o quadros de Maria Helena Vieira da Silva.


16 setembro 2003

2010 

Vamos ter que esperar até 2010 para sermos desenvolvidos. Nessa altura o “pelotão da frente” será nosso. Não haverá Alemanha ou França que nos possa cortar caminho. O sol radioso está prometido.

Até lá teremos que fazer mais uns sacrificiozinhos e aumentar a famosa produtividade. Com Durão ao leme temos o futuro garantido. Acredite quem quiser!

OMC 

Tal como já era esperado Cancun pariu um rato. Ou seja, nada foi decidido, tudo foi adiado. A começar pelo assunto em destaque: os subsídios americanos e europeus à produção agrícola. Nem a Europa, nem os EUA querem irritar os respectivos agricultores. Das manifestações de José Bové aos votos do cotton belt, o melhor é deixar tudo como está. Não é agradável ver as ruas de Paris cortadas por alfaias agrícolas. E Bush Jr. não pode alienar mais votos, agora que a sua política externa para o mundo árabe cai aos bocados.

Entretanto, o terceiro mundo continua na miséria. Sem subsídios à produção e à exportação os pobres africanos lá continuarão no seu calvário. O mundo não muda mesmo!

Welcome back 

O Crítico Musical, depois de um mês de ausência da blogoesfera e de Portugal, está de regresso. Bem vindo!

15 setembro 2003

Nós, o Povo 

“O povo tem mais um herói, e quanto mais os advogados dos arguidos dizem mal dele, mais o povo o admira”. É assim que termina mais uma reportagem da TVI. O “herói” chama-se Rui Teixeira e é juiz. A reportagem surgiu a propósito do primeiro dia de trabalho do juiz Teixeira na Comarca de Torres Vedras. Depois de terem tentado filmar o juiz a entrar no seu novo Tribunal, rodeado por um magote de seguranças, os jornalistas da TVI foram entrevistar algumas pessoas do “povo”. E as pessoas do “povo” lá disseram que estavam muito contentes com o novo juiz porque era muito “corajoso” e que “devia continuar o seu bom trabalho” e blá, blá, blá.

Claro que este “povo” entrevistado para dizer bem do juiz Teixeira não passou de quatro ou cinco cidadãos e cidadãs, alguns dos quais estavam à porta do Tribunal só para tentar ver ao vivo o mediático Meritíssimo. Mas não deixa de ser uma importante amostra do “nosso povo”. O mesmo “povo” que, se for preciso, à frente de um microfone e de uma câmara, defende a pena de morte, a expulsão dos imigrantes ou a justiça popular. O mesmo “povo” que diz mal dos políticos mas que, logo a seguir, é capaz de se humilhar só para receber um beijinho desses políticos. O mesmo “povo” que critica o Estado e que, por tudo e por nada, se encosta ao Estado. O mesmo “povo” que, quando atiçado pela comunicação social, injuria “os poderosos” para no dia seguinte rastejar para receber uma qualquer migalha do prato do “Sr. Doutor” ou do “Sr. Engenheiro”.

É deste “povo” que eu tenho medo!

Israel, Palestina e os EUA 

O artigo de Graham Usher no Público explica o que é que falhou no Roteiro para a Paz.

And the Winner is... 

...Portugal e Arredores na categoria de melhor texto da semana pelo post “O meu 11 de Setembro”. Agradeço ao Mata-Mouros a distinção!

Um Não sueco 

Porque é que os suecos não querem o euro?

Porque gostam muito da sua coroa? Porque são tão anti-europeus como os ingleses? Porque lá pelo norte as minudências do sul não interessam nada? Porque a sua neutralidade é tão sagrada que aderir ao euro seria o princípio do fim? Porque não encontraram nenhuma imagem de jeito para colocar nos seus euros? Porque só estão na União Europeia por causa dos passaportes e dos vistos? Porque até têm um bom nível de vida e mudar para quê? Porque desconfiam dos alemães? Porque, lá bem no fundo, os suecos são uns chatos maníaco-depressivos que, de vez em quando, se lembram de sair da sua letargia gelada para assassinar um governante no meio da rua?

Camacho 

Pelo que vi do jogo de ontem entre o Glorioso SLB e o Belenenses acho que José António Camacho não vai ficar por muito mais tempo na Luz. Não porque lhe faltem qualidades, mas porque simplesmente se fartou de tanto amadorismo (a falta de jogadores, os treinos em Massamá, as incompetências da direcção). Com mais um ou dois maus resultados Camacho vai dizer que assume todas as culpas e olé, aí vai ele de regresso a Castela. Aceitam-se apostas para o nome do novo treinador do Benfica!

14 setembro 2003

Um elogio 

Hoje é um daqueles dias em que Pacheco Pereira é o meu herói. Confesso que tive coisas mais importantes para fazer no sábado à noite do que ouvir o discurso de rentrée do Paulinho das Feiras. Só sei aquilo que li hoje nos jornais. Portando, com a devida vénia, transcrevo na íntegra o que escreveu Pacheco Pereira:

Ver um noticiário da RTP Internacional, longe, dá-nos sempre uma visão mais depurada de Portugal. E coisas a que estamos habituados em Portugal surgem aqui mais estranhas. O dr. Portas já é estranho na pátria, e então longe surge completamente bizarro. Vi-o ontem num comício, a fazer de conta que tem a voz solta, quando todos sabemos que a tem há muito tempo presa. Falou de imigração, porque de facto quase não podia falar de nada. E o que disse é puramente ideológico, uma receita política sem sentido, ou melhor, com um outro e mais perigoso sentido do que aquele que ele lhe deu.

Primeiro, falou contra quem? Contra o governo de que faz parte. Os jornalistas, que na sua simplicidade andaram a repetir o dia todo o que o PP lhes disse, que o discurso "seria pela positiva", não perceberam que um ministro não pode dizer aquelas coisas sem estar a falar contra o Ministério da Administração Interna do governo a que pertence. Aquela parte do discurso foi "pela negativa" (acho estas classificaçoes uma treta, mas têm uso corrente porque são enganadoramente simples...).

E depois, o mais grave: convinha que alguém no PP, que saiba alguma coisa sobre imigração e emprego, dissesse ao dr. Portas que em Portugal, em 2003, essa correlação não tem qualquer sentido. Os trabalhadores da Marinha Grande ou as operárias da Clark's não vão trabalhar para a construção civil ou como empregadas domésticas. Os ucranianos e as cabo-verdianas, os moldavos e as são-tomenses não competem com os portugueses e as portuguesas nos empregos que têm, a não ser residualmente. Mas a catilinária contra a imigração do dr. Portas nada tem a ver com o emprego. Tem a ver com um Portugal limpo de imigrantes, e por isso acaba por resultar num discurso contra os imigrantes, tão pouco português que carece de sentido. É copiado da vulgata de Le Pen, do pior que há , e escolhido, não porque constitua qualquer preocupação dos portugueses, mesmo dos da direita, mas apenas porque o dr. Portas não pode falar de quase coisa nenhuma e ele não quer ficar calado.


Já agora, porque é que Paulo Portas tem a voz presa?

Guiné-Bissau 

Em cinco anos é o terceiro golpe de Estado. Depois da deposição de Nino Vieira e da morte de Ansumane Mané chegou agora a vez do colorido Kumba Yalá! A surpresa não é os militares terem tomado poder. O que surpreende é que só agora o tenham feito. Fontes “bem informadas” dizem que o golpe só teve luz verde das chefias militares depois de 750 soldados guineenses (na sua maioria pertencentes à etnia balanta que apoia Yalá) terem partido para a Libéria onde se juntaram a outros exércitos africanos que vão tentar assegurar o cessar fogo liberiano.

Com o país no caos não resta aos guineenses outra coisa senão esperar que este golpe lhes traga, finalmente, alguma dignidade. E já agora pode ser que Portugal recupere alguma da influência que perdeu com as “teorias da conspiração” do Presidente deposto. Apesar do comunicado a exigir o regresso da ordem democrática e constitucional, desconfio que o governo português está bastante satisfeito com a partida do “homem do barrete vermelho”!

A almôndega e o eclair 

Aparentemente João Soares não gosta nem um bocadinho de Eduardo Prado Coelho. Basta ler um texto que o actual deputado do PS “dedicou” ao colunista do Público:

Almôndega
É um caso de falta de caracter como há poucos na nossa terra. Coluna vertebral em termos cívicos e políticos é coisa que não tem, um verdadeiro molusco. Fisicamente é mais uma pequena almôndega. Antes de Abril de 74 primou pela ausência, depois aderiu ao PCP de que saiu em 26 de Novembro de 75. Esteve pelo PS, no tempo de Constâncio, pelo PRD deu também um ar da sua graça, passando claro pela sabujice a Cavaco Silva enquanto Primeiro Ministro. Um espanto de rectidão e de coerência. Puseram-no na Comissão Nacional do PS de novo no ultimo congresso, mas é sitio onde não aparece. Prometi-lhe a doçura de um "eclair" de café nas ventas, claro não se bate numa almôndega. Tenho que arranjar tempo de passar por uma boa pastelaria.


Será que o Prado Coelho vai reagir? E se reagir qual o bolo que vai excolher?

Pouco Mentiroso? 

Depois disto, o tal blog (que quase ninguém diz o nome mas que toda a gente lê) passou a ser oficialmente reconhecido por um dos órgãos de soberania de Portugal!

Basta lerem o post scriptum desta crónica no JN, assinada por um deputado do PS. Acham que agora já podemos nomear o tal blog sem correr o risco de sermos processados?

Encontraram-me 

Eu já tinha perdido toda a esperança, eis senão quando o Grupo de Amigos de Olivença descobre o meu e-mail e me passa a enviar os seus preciosos comunicados! Será que estão à espera que eu os divulgue?

13 setembro 2003

Bill em Portugal 

Pergunta o Bloguítica Nacional onde vai ser e quem organiza a conferência que Bill Clinton vai dar em Lisboa. A resposta está aqui.

A carreira das Necessidades 

O Notas Verbais é um blog interessante. Sobretudo porque está muito bem informado acerca de tudo o que se passa no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por isso aqui ficam algumas perguntas (responde se quiser).

Onde é que foram desencantar o actual Secretário de Estado da Cooperação?

Porque é que Francisco Seixas da Costa saiu de Nova Iorque para o desterro de Viena? E já agora porque é que recusou o cargo de Enviado Especial da União Europeia para o Médio Oriente?

Porque é que Fernando Neves, Nunes Barata e João Salgueiro foram praticamente expulsos dos postos que ocupavam (Luanda, Berlim e Secretaria-Geral)?

Porque é que Portugal continua sem Embaixada em Tripoli?

12 setembro 2003

KO? 

Diz o Cidadão Livre que assistiu em directo ao fim da carreira política de Mário Soares. Tudo por causa de um debate na SIC Notícias onde o grande tema era o 9/11 de Nova Iorque e as suas consequências para o mundo. Vi o debate mas o KO escapou-me por completo.

Soares KO? Fim do político? E ainda por cima com o Pacheco Pereira? Acho que o Cidadão está a ver o filme ao contrário. Se alguém tem a sua carreira política por um fio esse alguém é o Pacheco Pereira. Mário Soares limita-se a fazer aquilo que o tornou imbatível: política. Quase dez anos depois de ter deixado o Palácio de Belém ainda continua a ser o mais escutado dos portugueses. Portanto, a “morte em directo” (desejada por alguns) não passou de uma breve ilusão. Enquanto Soares viver não há Cavaco ou Santana que lhe faça sombra!

O facho de Silvio 

O Primeiro-Ministro de Itália, Presidente em exercício do Conselho Europeu e tycoon dos media, Silvio Berlusconi, afirmou que Benito Mussolini tinha sido “benigno”. Mais: “Mussolini nunca assassinou ninguém e enviava as pessoas de férias para um exílio interno.” Quando o confrontaram com estas palavras Berlusconi afirmou que reagiu como “um patriota, um verdadeiro italiano” a uma comparação entre o Duce e o Saddam. Palavras para quê?

Se isto não é negacionismo......

Poor Tony 

Afinal Blair sabia que o Iraque não tinha armas de destruição maciça e que a história dos “45 minutes warning” era treta. Foi também avisado que a guerra contra o Iraque iria aumentar, e não diminuir, o risco de ocorrerem atentados terroristas contra o Reino Unido e que não havia nenhuma ligação entre a Al Qaeda e o regime de Saddam.

Another of Tony Blair's main justifications for war on Iraq was blown apart yesterday by the disclosure that intelligence chiefs had warned that deposing Saddam Hussein would increase the risk of terror attacks on Britain.
(...) Mr Blair was told secretly by the Joint Intelligence Committee (JIC) that there was no evidence of any link between Saddam Hussein and Osama bin Laden. Crucially, the JIC "assessed that al-Qa'ida and associated groups continued to represent by far the greatest terrorist threat to Western interests and that threat would be heightened by military action".


Ou seja, Blair mentiu descaradamente aos britânicos sobre uma matéria que envolve a defesa do seu próprio país. Pior, o facto de participar na guerra de Bush Jr. veio aumentar a insegurança no Reino de Sua Majestade. Para ler a notícia completa aqui.

A Líbia 

O Conselho de Segurança da ONU votou, apenas com as abstenções dos EUA e da França, o levantamento das sanções contra o regime de Kadafi. É apenas mais um passo para limpar a imagem internacional da Líbia e do seu excêntrico líder (Kadafi continua a viver numa “tenda” nos arredores de Tripoli e de lá já disse que não sai enquanto todos os seus concidadãos não tiverem uma habitação condigna!).

O isolamento internacional há muito que tinha terminado, sobretudo quando empresas europeias decidiram investir na Líbia em busca dos lucros do petróleo e do gás natural. Aliás, estas sanções nunca tiveram o efeito desejado já que a economia líbia continuou a crescer a um ritmo invejável para os padrões africanos (e a atrair sudaneses, egípcios, tunisinos, etc., que procuram o que cada um dos seus países não lhes consegue dar).

No meio disto tudo sabe-se que continua o embargo de investimento para companhias norte-americanas. Mas detendo a Líbia uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, não deverá faltar muito para os amigos texanos de Bush Jr. começaram a pressionar o Presidente para que este lhes abra as portas de tão apetecível mercado!

Israel 

E se Israel decidir mesmo, contra tudo e contar todos, expulsar Arafat dos territórios palestinianos? O Governo de Sharon, cego pela violência dos últimos tempos e pelo desejo – cada vez mais patente – de anexar parte ou a totalidade da Cisjordânia e de Gaza parece apostado no “quanto pior melhor”. Os EUA dizem que não concordam (pelo menos para já?) com esta medida e Shimon Peres avisa que é “um gravíssimo erro”.

Os falcões de Jerusalém parece que não querem olhar para a história recente e para os exemplo de Ytzhak Rabin ou Menachem Begin que, no passado, decidiram correr o risco de fazer a paz com velhos inimigos. Expulsar Arafat, como já escrevi anteriormente (post “Quem manda na Palestina?” de 8/Set.) vai pulverizar os muitos grupos que ainda estão sob a alçada da OLP numa luta sem tréguas contra Israel. A Intifada corre o sério risco de se transformar numa guerra aberta.


Anna Lindh 

Tem toda a razão o Bloguítica Nacional quando se insurge contra o silêncio da blogoesfera perante o assassinato da Ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, Anna Lindh. O Portugal e Arredores faz o seu mea culpa.

No mesmo post o Bloguítica fala também da “choramingadeira tremenda” que varreu Portugal depois da morte de Sérgio Vieira de Mello, considerado um grande amigo do nosso país! Independentemente dos méritos de Sérgio Vieira de Mello em Timor (e daquilo que fez, ou não, por Portugal) a verdade é que o facto de falar português e de ter tido um papel relevante na história recente de uma nação ligada a Portugal é suficiente para a sua morte – sobretudo nas circunstâncias em que ocorreu – ter sido tão sentida.

Quanto a Anna Lindh, era praticamente desconhecida em Portugal, embora muitos destaquem agora o papel que desempenhou na “europeização” da Suécia. Não existem mortes de primeira ou de segunda, mas as coisas são como são. É apenas mais fácil “chorar” alguém de quem nos sentimos mais próximos.

11 setembro 2003

Allende por Neruda 

Las obras y los hechos de Allende, de imborrable valor nacional, enfurecieron a los enemigos de nuestra liberación. El simbolismo trágico de esta crisis se revela en el bombardeo del Palacio de Gobierno; uno evoca la Blitz Krieg de la aviación nazi contra indefensas ciudades extranjeras, españolas, inglesas, rusas; ahora sucedía el mismo crimen en Chile; pilotos chilenos atacaban en picada el palacio que durante siglos fue el centro de la vida civil del país.

Escribo estas rápidas líneas para mis memorias a sólo tres dias de los hechos incalificables que llevaron a la muerte de mi gran compañero el presidente Allende. Su asesinato se mantuvo en silencio; fue enterrado secretamente; sólo a su viuda le fue permitido acompañar aquel inmortal cadaver. La versión de los agresores es que hallaron su cuerpo inerte, con muestras de visible suicidio. La versión que ha sido publicada en el extranjero es diferente. A reglón seguido del bombardeo aéreo entraron en acción los tanques , muchos tanques, a luchar intrépidamente contra un solo hombre: el Presidente de la Republica de Chile, Salvador Allende, que los esperaba en su gabinete, sin más compañía que su corazón , envuelto en humo y llamas.

Tenian que aprovechar una ocasión tan bella. Habia que ametrallarlo porque nunca renunciaría a su cargo. Aquel cuerpo fue enterrado secretamente en un sitio cualquiera. Aquel cadáver que marchó a la sepultura acompañado por una sola mujer que llevaba en si misma todo el dolor del mundo, aquella gloriosa figura muerta iba acribillada y despedazada por las balas de las metralletas de los soldados de Chile, que otra vez habian traicionado a Chile.


Pablo Neruda, 14 de Setembro de 1973

O texto integral pode ser lido aqui.

O outro 9/11 (continuação) 

O outro 9/11 

11 de Setembro de 1973: "Chove em Santiago."

O meu 11 de Setembro 

Há uns anos atrás um dos personagens do Herman perguntava sistematicamente “Onde é que você estava no 25 de Abril?” Para várias gerações este foi um marco inigualável. Desde há dois anos a pergunta mantém-se. A data é que mudou. Onde é que cada um de nós estava quando os aviões embateram nas torres gémeas, quando estas caíram, como é que soubemos que tudo estava a acontecer?

No dia 11 de Setembro de 2001 eu estava em Ouagadougou (capital do Burkina Faso), em plena África central. Não tenho nenhuma memória significativa desse dia até à hora do almoço. A estadia em Ouagadougou não era particularmente estimulante, pensava eu. Quem é que se tinha lembrado de realizar uma conferência internacional no meio da savana africana? Dois meses antes tinha sido obrigado a vacinar-me contra tudo o que era doença existente na região.

A chegada, num domingo à noite depois de 10 horas de espera no aeroporto de Bruxelas, foi uma desilusão. Não senti o tradicional “apelo da terra africana” nem o “cheiro” de que tantos falam. Um colega francês, que tinha chegado dois dias antes, esperava-nos no aeroporto. Quando lhe perguntei como era o hotel, não estava à espera de uma resposta tão franca: “C’est sordide.”

Mas eu tinha que ficar uma semana no Burkina Faso, portanto não valia a pena desesperar. Até ao dia 11 de Setembro. A seguir ao almoço regresso ao centro de conferências (só mais tarde é que me apercebo porque é que alguns dos membros da organização andavam a correr de um lado para o outro com uma expressão estranha). Quando me preparo para assistir à sessão da tarde a Presidente da conferência (uma portuguesa!) anuncia que algo de muito grave se tinha passado em Nova Iorque e em Washington. Não me lembro se referiu as torres gémeas mas na altura falou em 100.000 mortos. Na sala ninguém quer acreditar. A reunião da tarde é imediatamente suspensa.

Todos correm para os poucos televisores e telefones disponíveis. O único canal internacional sintonizável (e mesmo assim em péssimas condições) é a TV5 Afrique. Tento ligar para Lisboa. Consigo falar para casa e a seguir com uma colega que me põe a par do que está a acontecer. Estar longe de Portugal numa altura destas aumenta a minha angústia e as minhas dúvidas.

Entretanto, chegam mais notícias dispersas de possíveis ataques ao Capitólio e na Pensilvânia. Só consigo pensar que a terceira guerra mundial é inevitável e que vou ficar preso em Ouagadougou por tempo indeterminado. Como integrava uma delegação oficial do Estado português tenho a esperança que um Falcon da Força Aérea venha em nosso auxílio. Dois anos depois é fácil dizer que os meus receios eram completamente exagerados, mas para quem está no meio de África e ouve falar em 100.000 mortos em Nova Iorque (um massacre desta escala só poderia ser originado por um engenho nuclear!) e ataques em Washington e na Pensilvânia só pode pensar que mundo está à beira do fim.

Do resto do dia, completamente surrealista, guardo duas memórias: com as televisões a transmitirem mais “chuva estática” do que imagens, um grupo de pessoas, onde eu me incluo, reúne-se à volta de um pequeno rádio sintonizado – a muito custo – numa estação francesa que relata os acontecimentos em Manhattan. Só nesta altura, cerca de duas horas depois dos acontecimentos, é que percebemos que o World Trade Center já não existe.

Regresso ao Hotel Palm Beach (o nome não tem nada a ver com as instalações) na esperança que a televisão do quarto me dê mais informações. No lobby do Hotel um grupo de hondurenhos assiste, calmamente, a um jogo de futebol de um qualquer campeonato europeu que estava a ser transmitido pela televisão local. Pergunto-lhes se não sabem o que aconteceu em Nova Iorque. Dizem-me que sim e acrescentam que como os voos no espaço aéreo norte-americano estão interditos não sabem como vão regressar ao seu país. Mas nesse momento era mais importante ver o jogo!

Entro no quarto a correr e ligo a televisão. Os poucos canais africanos disponíveis estão mudos sobre a tragédia americana. Não existe CNN. A TV5 Afrique dá um resumo de 10 minutos – onde, pela primeira vez, vejo o horror dos aviões a embaterem contra as torres, as pessoas a atirarem-se para a morte e, finalmente, a queda dos edifícios – e volta à programação autóctone. O mundo está mergulhado no caos e eu estou isolado do mundo num quarto de hotel no meio do nada. Depois deste episódio fico com a certeza que a globalização ainda não chegou a todo o planeta!

Consegui antecipar o regresso a Lisboa em 24 horas. Não sem antes ter que esperar no aeroporto de Ouagadougou mais 7 horas pelo avião da Sabena que haveria de me fazer regressar à Europa. A sala de chegadas da Portela está vazia. O habitual burburinho de pessoas que aguardam amigos e familiares não existe. No seu lugar estão vários polícias de metralhadora em punho. Para completar esta minha “aventura na selva” as malas não chegam. Só dois dias depois é que recebo as primeiras notícias da minha bagagem: ficaram retidas em Bruxelas.

Provavelmente não vou voltar ao Burkina Faso. Enquanto lá estive só tinha uma coisa em mente: regressar a Lisboa. Dois anos depois olho para este país africano com alguma nostalgia. É que o meu 11 de Setembro foi passado em Ouagadougou!

10 setembro 2003

Hoje no planeta 

A Al Jazeera (quem mais) divulgou um vídeo com bin Laden e o seu número dois, Ayman al-Zawahri, que terá sido filmado entre Abril e Maio último “algures no Mundo”. Se as imagens foram realmente captadas já este ano então os serviços secretos do Tio Sam continuam aos papéis. Certezas ninguém pode ter, mas pelo menos as palavras de bin Laden, que continua a incitar à luta contra os “cruzados”, só vão deitar mais gasolina (ou será petróleo?) para as fogueiras do Afeganistão, do Iraque, da Palestina e da Arábia Saudita.

Em Israel e nos territórios palestinianos é olho por olho e dente por dente. A violência é imparável. O Hamas, depois da tentativa de assassinato do seu líder espiritual, decidiu que as tréguas não servem os seus propósitos. Arafat e a restante liderança palestiniana, entalados entre o bulldozzer Sharon e uma população desesperada e que anseia por vingança contra os seus opressores, está num beco sem saída. O governo israelita, aos bombistas suicidas, responde com mais bombas e assassinatos. Sharon até pode decapitar a liderança do Hamas mas não vai conseguir acabar com os terroristas. A situação em Gaza e na Cisjordânia está de tal modo degradada (política, social, económica e humanamente) que qualquer miúdo, num impulso tresloucado, se pode voluntariar para fazer explodir uma bomba perto de um grupo de israelitas.

Amanhã passam dois anos sobre o 11 de Setembro. Já estão prometidos documentários, retrospectivas (as imagens dos aviões a embaterem nas torres serão repetidas até à náusea), entrevistas e análises. Amanhã completam-se dois anos sobre o início do século XXI. E pelo que me é dado a observar o mundo não aprendeu muito com o que se passou em Nova Iorque. Os problemas agravaram-se. Normalmente é o que sucede quando a única solução é deitar bombas para cima dos problemas!

Por cá discute-se acerca de 7 (sete) minutos de pornografia para adultos numa cassete de vídeo que apenas deveria conter um documentário sobre o 25 de Abril! Portugal continua a ser um país original. E muito divertido.

09 setembro 2003

Mudar o MNE 

Através do Bloguítica Internacional tive acesso a um post do Notas Verbais onde este afirma: “O site do Palácio das Necessidades é uma desgraça”. Totalmente de acordo. Não quero dizer que tive razão antes do tempo (até porque outros, antes de mim, já haviam dito o mesmo) ou que “eu é que falei primeiro”, mas em dois posts anteriores (que volto a reproduzir) referi este assunto:

20 Julho 2003
Necessidades ao fundo
A página do Ministério dos Negócios Estrangeiros na internet é, para ser simpático, uma vergonha. O grafismo é do mais básico que se pode encontrar; não existe qualquer informação em inglês e francês (os estrangeiros, se quiserem, que aprendam português); e as informações estão completamente desactualizadas. Ficamos a saber, por exemplo, que Ana Gomes ainda continua a ser a Embaixadora em Jakarta, mais de 6 meses depois de se ter despedido da capital indonésia.
Que o MNE está falido, já toda a gente sabia; mas numa altura em que a “diplomacia económica” é tão elogiada, talvez fosse avisado alguém dizer ao Ministro que um dos principais rostos de Portugal no ciberespaço devia ser alvo de uma cirurgia plástica. Para eliminar rugas e limpar as teias de aranha!


2 Setembro 2003
Jugoslávia?
O site do Ministério dos Negócios Estrangeiros continua a primar pela originalidade. Se alguém no MNE ler este blog devo avisar que a Jugoslávia já não existe. Agora chama-se Sérvia e Montenegro!


Quem conhece minimamente o MNE sabe como continuam bafientos os corredores do Palácio das Necessidades. Com honrosas excepções, é fácil constatar que as chefias insistem nas mesmas práticas e praxes dos anos 60 e 70. E, sabendo o que a casa gasta, não consigo ver melhorias nos próximos tempos.

Recentemente telefonei para uma amiga que lá trabalha a pedir que me enviasse alguma documentação (nada de confidencial!) sobre uma Conferência que, recentemente, decorreu em Lisboa sob a égide do MNE. A minha amiga prontificou-se a fazer a recolha da documentação, mas quando lhe perguntei se a podia enviar por correio disse-me que não. Só consegui balbuciar: “O MNE anda mesmo mal de trocos...”.

Moral da história: se nas Necessidades não têm nem dinheiro para um miserável selo, então nem vale a pena pensar que vão renovar o site. Já agora, e se posso fazer uma sugestão, para além da falta de euros noto que, nas cúpulas dirigentes do MNE, existe muito a tendência para “deixar andar”. Por isso aqui fica a sugestão: quando pensarem em mudar novamente de Secretário-Geral escolham alguém de fora e não um venerando Embaixador em fim de carreira. Se quiserem posso dar algumas sugestões........

Mais um..... 

Um bombista suicida aproxima-se de uma paragem de autocarros nas imediações de um quartel. Na paragem encontram-se vários soldados. O bombista, disfarçado de militar, não levanta qualquer suspeitas. Morreram 7 pessoas, mais de trinta ficaram feridas. Aconteceu hoje em Telavive .

Israel vai retaliar. Os Apache vão lançar mais mísseis contra activistas do Hamas. A casa da família do bombista será demolida. O ódio, de ambos os lados, vai continuar a aumentar. Este “Roteiro para a Paz” está, muito provavelmente, morto.

O Utopista 

Paul Bremer, administrador dos EUA no Iraque, anunciou o calendário político para a entrega do poder aos iraquianos, que deverá estar terminado no primeiro semestre de 2004, desejavelmente até no primeiro trimestre, altura em que os 140 mil soldados americanos começarão a abandonar o país.
Este é o calendário ideal para George Bush, tal como se percebeu da sua comunicação de domingo, de forma a «libertá-lo» para as presidenciais de Novembro de 2004.
No Iraque, os americanos estão a acelerar o processo de transferência do poder, e a criar todas as condições para que a segurança do país e das cidades passe para os iraquianos. É visível, aliás, que das sete etapas previstas no plano, três já tenham terminado, restando agora a redacção da nova Constituição, a sua validação em referendo, as eleições para o novo Governo e a dissolução da Administração da coligação, uma vez eleito um Governo iraquiano.


Quem mais senão o bushista-mor da Lusitânia (que responde pelo nome de Luís Delgado) poderia descrever um cenário tão idílico lá para as bandas da Babilónia? Como toda a gente sabe os iraquianos – desde o mais fundamentalista clérigo xiita não esquecendo os deserdados do Partido Baath – sempre que vêm um soldado americano nas ruas atiram-lhe logo com pétalas de rosas para saudar a sua passagem.

Eu se fosse o Bush Jr. contratava o Delgado para Director de Campanha. Tenho a certeza que ele irá arranjar um argumento lunático para explicar que tudo aquilo que está a correr mal no Iraque afinal está a correr às mil maravilhas. A começar pelos 87 mil milhões de dólares adicionais que pediu ao Congresso para financiar “a reconstrução”.

08 setembro 2003

Cartoon 

O Bartoon de hoje, no Público, é dedicado aos blogs. Imperdível!

Quem manda na Palestina? 

Israel, isto é o Governo Sharon, quer expulsar Arafat dos territórios palestinianos. Os americanos, aparentemente, tentam evitar que isso aconteça. No meio de tudo isto o que surpreende é que os sempre bem informados israelitas queiram “fazer a paz” sem Arafat. Isso equivaleria a pulverizar ainda mais a liderança palestiniana. Se isso acontecer não me parece que Sharon se vá sentar à mesa de negociações com o Sheik Ahmed Yassin!

Israel acusa Arafat ou de apoiar activamente o terrorismo ou então de “fechar os olhos” às actividades do Hamas e da Jihad Islâmica. Não creio que Arafat tenha “ordenado” os ataques terroristas que, nos últimos anos, atingiram cidadãos israelitas. Se terá feito tudo o que estava ao seu alcance para os evitar já é outra história.

Mas será que Arafat tem poder suficiente para controlar tudo o que se passa em Gaza e na Cisjordânia? Provavelmente não. Basta olhar para a génese da OLP para ver que existem demasiados grupos (com fidelidades duvidosas a Arafat) no terreno.

Nos anos 60 surgem os primeiros dirigentes palestinianos que terão alguma eficácia e visibilidade na luta contra Israel. O mais conhecido e carismático destes dirigentes era Yasser Arafat, líder da Fatah, que na altura beneficiava do apoio da URSS.

Inicialmente os nacionalistas palestinianos estavam divididos por várias unidades para-militares e organizações de carácter nacionalista e/ou marxista que tinham como objectivo "libertar a Pátria palestiniana". Entre estas organizações encontrava-se a Frente Popular de Libertação da Palestina, liderada por George Habash, um cristão árabe que pretendia, para além da libertação da Palestina, o derrube da maioria dos regimes da região, que considerava antiquados (o nacionalismo árabe, impulsionado pelo Presidente egípcio Nasser, estava no seu auge). A maior destas organizações era a Fatah, liderada por Arafat, que seria escolhido para presidente da Organização de Libertação da Palestina, chapéu sob o qual se iriam albergar todos os grupos e partidos palestinianos que lutavam, de uma forma ou de outra, contra Israel.

O exílio forçado de Arafat para Beirute e mais tarde para Tunes, vai fragilizar a OLP interna e externamente: a estratégia de reconhecer o Estado de Israel e de negociar com os Governos de Ytzhak Shamir e Ytzhak Rabin nunca será aceite por certos sectores da organização; nos territórios ocupados os mais jovens começam a olhar para a “velha” geração de Arafat com alguma desconfiança.

Em Dezembro de 1987 iniciou-se a primeira Intifada (revolta ou levantamento), que não era mais do que uma reacção natural por parte dos palestinianos à ocupação israelita e às condições de vida existentes nos territórios ocupados desde 1967.

Aproveitando-se da distância territorial e psicológica que separava a elite dirigente da OLP da população palestiniana, os movimentos fundamentalistas islâmicos, vão tomar as rédeas desta revolta, cavalgando no descontentamento reinante, não só com os israelitas, mas também com o movimento de Yasser Arafat, a quem acusavam de falta de empenhamento na resolução da questão palestiniana e de não passar de uma "marioneta soviética (...) que se limitava a passear de Mercedes, longe das realidades da ocupação."

Entre os novos grupos fundamentalistas destacou-se, desde o início, o Hamas (que significa literalmente "entusiasmo"), fundado por refugiados e jovens universitários em Gaza para quem a leitura diária do Alcorão nas Mesquitas se tornara na alternativa mais viável ao estudo em Universidades degradas. Frutos do êxodo rural e da explosão demográfica, e habitando nos subúrbios deprimidos das grandes cidades, os mais novos vão recorrer às mesquitas - que formam verdadeiras redes caritativas e de assistência aos mais necessitados - como forma de fugir à dura realidade do quotidiano, tornando-se assim no grupo que se torna o "alvo" principal das investidas dos radicais.

Mesmo após a assinatura dos Acordos de Paz entre Israel e a OLP, pelos quais foi criada a Autoridade Palestiniana e um princípio de autonomia dos territórios de Gaza e da Cisjordânia face ao Estado judaico, os grupos fundamentalistas não cessariam a sua actividade bombista mas, pelo contrário, reforçaram-na, considerando que o processo de paz deveria ser destruído porque se recusam a aceitar o direito à existência do Estado de Israel e, igualmente, porque não reconheciam nenhuma legitimidade a Arafat e à OLP para negociar em nome dos palestinianos.

Nas sábias palavras de Gilles Keppel (ler o seu livro A Vingança de Deus) "...quando as chancelarias ocidentais contavam ver surgir um esquerdista de keffieh, é um mullah de turbante quem empunha a sua Kalachnikov".

Arafat pode não ser flor que se cheire (como Sharon, aliás), mas foi ele quem, até hoje, protagonizou a mais credível tentativa de levar a paz ao Médio Oriente. Infelizmente, essa tentativa – os Acordos de Oslo – morreu no dia em que Rabin foi assassinado por um fundamentalista judeu. Expulsar Arafat da Palestina equivale a dar ainda mais poder aos radicais do Hamas, da Jihad e da OLP. Talvez seja essa a estratégia de Sharon: tornar a situação no terreno de tal maneira incontrolável que não lhe reste outra “alternativa” senão avançar com a anexação total da “Judeia e Samaria”.

07 setembro 2003

Hong-Kong (continuação) 

Aconteceu na Região Administrativa Especial de Hong-Kong da República Popular da China: o Governo local pretendia fazer aprovar uma lei de segurança controversa. A população do território protestou e o executivo, nomeado por Pequim, foi obrigado a recuar.

Conclusão: em Hong-Kong os cidadãos têm uma verdadeira consciência política graças, sobretudo, à acção dos ingleses e, em especial, do último Governador britânico, Chris Patten (ver o meu post “Hong-Kong” de 18/07/2003) . Querem apostar que se a mesma legislação fosse aprovada em Macau ninguém abria a boca?

Leituras do dia 

O artigo de Ana Gomes no Público sobre a presença da GNR no Iraque e o papel que a ONU deveria desempenhar.

O artigo de João Paulo Guerra no Diário Económico sobre os quatro (e não 1316!) portugueses que morreram devido à vaga de calor deste Verão.


O Camarada Vasco 

O Público traz hoje uma interessante reportagem sobre uma sessão de autógrafos do General Vasco Gonçalves na Festa do Avante. Uma das protagonistas da reportagem tenta arrastar o filho (que também se chama Vasco em homenagem ao General) para conhecer o Primeiro-Ministro do Verão Quente, mas o pequeno Vasquinho parece estar mais interessado em ir ouvir uma banda que dá pelo nome de Terrakota! Um outro caçador de autógrafos revolucionários afirma que Vasco "É um homem puro, muito sensível, tão bom como se fosse o meu pai".

Não conheço Vasco Gonçalves. Na altura em que chefiou quatro Governos provisórios andava eu ainda de fraldas. Por isso a única memória que tenho dele é das suas aparições televisivas, seja por alturas dos aniversários do 25 de Abril ou num dos documentários que ciclicamente regressam ao pequeno ecrã (o célebre comício de Almada é uma daquelas peças obrigatórias, goste-se ou não do personagem).

Não ponho em causa que o senhor tenha tido boas intenções, que quisesse criar uma sociedade “mais justa”, etc. etc. Mas a memória que me irá sempre acompanhar é a voz do meu pai que, como bom sá-carneirista, sempre que o General aparecia na televisão dizia: “olha, lá está outra vez o Vasco maluco!”

A desbocada (continuação) 

Diz este blog, em resposta à minha pergunta “como é que pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares continuam a colaborar com este canal de esgoto.” que a resposta está em Marx (Karl) e no vil metal com que são pagos semanal ou mensalmente.

Não tenho dúvidas que o dinheiro que recebem lhes deve saber muito bem mas duvido que seja só isso. Será que não existem outras televisões que gostariam de contratar o Marcelo e o Miguel? Será que o Marcelo e o Miguel estão ligados por algum pacto de fidelidade à TVI? Será que eles se sentem bem num canal de televisão que apela constantemente ao mais básico e rasteiro que existe no ser humano? Confesso que continuo sem resposta a nenhuma destas perguntas.

Ler 

O artigo de Paul Krugman, um dos mais lúcidos economistas/articulistas norte-americanos, sobre Bush, o Iraque e a China.

06 setembro 2003

A desbocada 

Depois de ter visto que vi achei que era demasiado nojento para postar algo. Sobretudo porque ia dar “tempo de antena” a quem não merece mais que o desprezo e o silêncio. Mas quando li o Almocreve mudei de opinião. Este texto diz tudo o que eu gostaria de ter dito depois de ter visto Ricardo Sá Fernandes a defender-se dos perdigotos lançados por Manuela M. Guedes no Jornal Nacional de ontem, da TVI.

O Jornal da TVI da noite do dia 5 de Setembro foi uma náusea, um vómito completo. Não bastava todas as noites (e em todos os canais) estar presente protagonistas do processo Casa Pia, como agora a senhora Manuela Moura Guedes faz acusações gravíssimas a indivíduos que estão sob suspeita de crime hediondo. Apenas me espanta que a dita senhora não seja processada por quem de direito ou recambiada para a cela da PJ para averiguações, dado o seu conhecimento profundo e seguro de quem é quem em todo este processo. Mas suspeito que essa preciosidade do sigilo das fontes impeça tal acto pedagógico. E, doravante, sem que se questione a função do jornalista e da informação face ao media, é possível aparecer mais Manuelas acusando quem quer que seja. Eis a TV transformada, definitivamente, no Canal do Crime ou do Insólito.

Infelizmente continuo a não perceber como é que pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares continuam a colaborar com este canal de esgoto.

Mentira? 

O tal blog, aquele de quem quase ninguém fala mas que toda a gente conhece, mudou de imagem. Até já tem um mail e um link para se fazerem comentários! Como diz um amigo meu “eles andem aí”.

05 setembro 2003

Os Antimericanos 

Subscrevo, por completo, o artigo de Miguel Sousa Tavares no Público de hoje.

Será que custa muito perceber que as relações entre o resto do Mundo e os EUA estão como estão por causa de um fundamentalista cristão de extrema direita com cara de símio e miolos de couve chamado Bush?

No dia seguinte à “eleição” de Bush Jr. dois jornais londrinos (um era o The Independent) dedicavam as suas capas às notícias vindas de Washington: “Missing you already Bill” titulava um. No outro: “Don’t Dump W. on Us”. Aqui o “Us” referia-se à Europa.

Na altura estes títulos reflectiam, na perfeição, o sentimento europeu face à partida de Bill e à chegada de George. Três anos depois a situação agravou-se. É certo que quem elege os seus Presidentes são os norte-americanos. Mas o resto do Mundo, e a Europa em particular, não tem que rastejar sempre que a Casa Branca dá uma ordem.

Em 2004 os americanos irão eleger o seu Presidente. Só espero que percebam que uma mudança em Washington é tão crucial para eles como para nós. It’s the President, stupid!

04 setembro 2003

Do lado de lá 

E se fosse cá?

A sondagem 

Ver, no Público de hoje, o que pensam os portugueses sobre o papel de Portugal no Mundo. Alguns resultados são muito curiosos:
51 por cento: percentagem de portugueses que não aprova a política externa da actual Administração norte-americana.
Ou seja, 51% dos portugueses não apoia a política externa do Governo PSD/PP.
57 por cento: é bastante alto o número de portugueses que dizem estar preocupados com a possibilidade de a Coreia do Norte desenvolver armas de destruição maciça.
Será que os portugueses sabem onde fica a Coreia do Norte?
80 por cento: uma elevada percentagem gostaria que a União Europeia se tornasse uma superpotência como os EUA (85 por cento consideram a UE mais importante para os interesses vitais de Portugal do que os EUA).
Ai se o Dr. Portas sabe! Os portugueses que se cuidem.
73 por cento: encaram a competição económica dos EUA como uma ameaça "extremamente importante" ou "importante".
Ora aqui está um resultado inesperado! Os têxteis portugueses estão tramados.
43 por cento: pensam que o Governo português gasta demasiado dinheiro em ajuda económica a outros países (81 por cento acham que gasta muito pouco na saúde e segurança social).
Depois disto fico com a certeza absoluta que os portugueses não fazem a mínima ideia acerca da distribuição de dinheiros do Orçamento de Estado.
5 por cento: é muito baixa a percentagem de portugueses que consegue dizer os nomes dos cinco países que são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (o país que tem um maior número de respostas certas nesta categoria é a Alemanha, com 24 por cento).
Toda a gente sabe que os cinco membros permanentes são a Mongólia, o Botswana, o Suriname, as Ilhas Salomão e a Moldávia.

Janeiro de 2006 

Os analistas tentam decifrar os seus oráculos. Os partidos lançam as suas apostas. Os portugueses já discutem o sucessor de Sampaio (que é uma excelente pessoa mas, no fundo, ninguém lhe liga nenhuma). E as eleições presidenciais só são em 2006!

À direita Cavaco espera, Santana saltita e Marcelo analisa. À esquerda Guterres internacionaliza-se e Soares (pai) diverte-se com a confusão que criou.

Já ouvi dizer que Mário Soares até tem comissão de candidatura. Eu acho pouco provável que o “velho leão” avance. Basta olhar para as últimas notícias e ver que Soares (filho) já disse que apoia Guterres. Outros soaristas também já afirmaram que a candidatura do “pai” não é para avançar. Soares (pai), também conhecido por Super Mário, limita-se a jogar xadrez presidencial. De forma magistral, diga-se. Mas, na altura da verdade, vai dar o seu apoio ao engenheiro. Claro que na cabina de voto poderá tapar os olhos e colocar a cruz algures no boletim. Mas o que conta é o apelo que vai fazer durante a campanha. Guterres pode dormir descansado.

Olivenza 

Devo declarar que fui ignorado pelo Grupos de Amigos de Olivença (com cedilha), GAO. Infelizmente não me mandaram nenhum mail! Mas só para chatear aqui vai: será que o GAO já se deu ao trabalho de perguntar à população de Olivenza (com zê) se estão interessados em fazer parte de Portugal? Ou se preferem ficar sob a tutela de Juan Carlos e sus muchachos? A resposta é óbvia!

03 setembro 2003

Turquia 

Parece que a Alemanha está disposta a apoiar a adesão da Turquia à União Europeia. Realmente parece. Mas as aparências iludem. Schroeder pode ter dado uma palmadinha nas costas do seu homólogo turco, mas a verdade é que a Alemanha – e a esmagadora maioria dos países da U.E. – olham para Ancara com muita desconfiança. E, enquanto puderem, vão tentar adiar a entrada dos turcos na “Europa”.

Uma coisa é certa. Por muitos “progressos democráticos” que faça, a Turquia não irá aderir nos dois próximos alargamentos (2004 e 2007/8). A consolidação de um verdadeiro Estado de Direito só agora foi iniciada (graças ao tão temido “islamita” Erdogan) e o poder dos militares começa, timidamente, a ser posto em causa (as decisões do todo poderoso Conselho Nacional de Segurança – que em tempos já derrubou governos – deixaram de ser vinculativas). Já a embrulhada com os curdos está longe de ser resolvida (em caso de guerra civil no Iraque a Turquia não ficará de braços cruzados).

A Turquia bem pode perorar sobre a sua utilidade estratégica e económica. Mas a situação internacional não a favorece: as relações com Washington já conheceram melhores dias (com bases no Iraque o território turco perdeu a importância que os americanos lhe atribuíram durante a Guerra Fria) e a Europa está mais preocupada com défices e reformas institucionais.

Com este cenário, e perante os “chega para lá” da Europa unida, o que pode Ancara fazer? Aproximar-se à Rússia? Altamente improvável. Unir-se às frágeis repúblicas do Cáucaso? Seria meter-se em mais sarilhos. À Turquia não resta outra alternativa senão esperar pacientemente que a deixem entrar no clube cristão de Bruxelas. Quem sabe daqui a uns 10 anos. Por muito que os actuais 15 o neguem, o factor religioso ainda conta!

Leituras do dia 

Na entrevista que dá ao DN, Ramiro Lopes da Silva aponta soluções, diz o que correu mal e demonstra porque é que Kofi Annan o escolheu para chefiar interinamente a ONU no Iraque.

Deixo apenas este pequeno excerto: A grande dificuldade para a ONU, a razão do grande debate interno em curso, é que é necessário recordar as primeiras palavras do mandato: «Nós, povos do mundo.» As Nações Unidas têm de continuar uma organização aberta. Aberta para trabalhar com as pessoas que tentamos servir, com os grupos políticos, as ONG nacionais, no Iraque ou em qualquer parte do mundo. A nossa dificuldade será tentar criar condições de segurança nas nossas instalações sem gerar uma mentalidade de bunker, que elimina a razão de ser das Nações Unidas. Encontrar esse equilíbrio será a parte difícil deste processo.

02 setembro 2003

Lagartices 

Eu benfiquista me confesso. Se pudesse torcia para que lagartos e tripeiros perdessem os dois, sempre. Mas como isso é humanamente impossível e porque não consigo manter-me neutro espero que o Sporting ganhe o jogo de hoje à noite.

Porque o Mourinho merece perder uns jogos para ver se baixa a bolinha; porque o Pinto da Costa está mais preocupado com a namorada; porque o Fernando Santos é benfiquista; porque o João Pinto, apesar de tudo, é que foi corrido do Benfica; porque sim.

Jugoslávia? 

O site do Ministério dos Negócios Estrangeiros continua a primar pela originalidade. Se alguém no MNE ler este blog devo avisar que a Jugoslávia já não existe. Agora chama-se Sérvia e Montenegro!

Conflitos Esquecidos 

Este termo, “conflitos esquecidos”, é normalmente aplicado a África e às guerras de “baixa” e “alta” intensidade que povoam aquele continente. Da barbárie dos grandes lagos, à violência da Serra Leoa ou da Libéria, não esquecendo Angola ou Sudão, os exemplo são imensos. A morte de milhões de pessoas no Rwanda e no Burundi foi vista com alguma indiferença e incomodidade pelo Ocidente. Era uma guerra “deles”, dos selvagens, que “apenas” se matam por pertencerem a tribos diferentes. Um primarismo inqualificável!

Quando as guerras estão longe de nós e das nossas raízes culturais é fácil dizer que “não temos nada a ver com isso”. No entanto, se as “guerras”, estiverem aqui ao lado já pensamos de outra forma. Pelo menos sentimo-nos mais solidários. Basta pensar nas reacções da Europa e dos EUA às imagens dos campos de concentração bósnios no início da década de 90. A NATO interveio e, até, hoje a Bósnia é governada e patrulhada pela comunidade internacional. Os ódios religiosos mantêm-se, mas os massacres acabaram. Apesar de alguma instabilidade, a situação no Kosovo e na Macedónia também melhorou. O vírus balcânico está, aparentemente, controlado. O mesmo sucede – mas em menor escala – no Cáucaso (com excepção da Chechénia).

As soluções europeias para ódios religioso e/ou étnicos mostraram que estes podem ser dominados. À força. Mas são dominados.

O mesmo não sucede em África. As primeiras “Forças de manutenção de Paz” só agora começam a dar uns, muito inseguros, primeiros passos. Os meios materiais e financeiros são escassos. E as tropas estão, regra geral, mal preparadas e pior pagas. Talvez não fosse má ideia se o “Ocidente” – em vez de enviar ajudas alimentares e financeiras que quase nunca chegam aos seus destinatários – investisse na formação e equipamento deste tipo de missões. Pouparia dinheiro e muitas vidas seriam salvas. Para completar o quadro, convinha que as principais potências africanas colaborassem neste esforço e perdessem o medo de invocar o direito de ingerência humanitária. O exemplo liberiano é um bom começo.

01 setembro 2003

Uma manhã no Limoeiro 

Sobre o processo Casa Pia, sobre o que se tem passado nas últrimas semanas, sobre as atitudes da "justiça" portuguesa, sobre os silêncios cúmplices dos media nacionais, sobre os medos instalados, sobre as hipocrisias populares..........
Este post do Portugal dos Pequeninos diz quase tudo aquilo que eu penso:
Este infeliz processo judicial, que dispensa apresentações, conheceu mais um episódio, confirmando o que eu tinha escrito no post anterior. A defesa, respondendo à errância decisória do Sr. Juiz de Instrução Criminal, promoveu o seu afastamento do processo, pelo que as diligências previstas e o circo anunciado, ficaram a aguardar melhores dias. Nas auscultações populares que se seguiram, nas rádios e nas tv's, a ignorância, que é sempre atrevida, lá lançou mais uns quantos dislates sobre o dinheiro dos advogados e o oculto poder dos "poderosos". Convinha talvez explicar a esta gentinha que os "poderosos" de hoje, podem ser eles mesmos amanhã. Eles querem lá saber o que é um "estado de direito".

Televisão Independente? 

Os noticiários da TVI estão cada vez mais interessantes. E hilariantes. Depois das entrevistas em directo às estrelas (!) do “Big Breda” e de histórias tão úteis como “a galinha que assassinou o porco à machadada no quintal do Senhor Felisberto da Conceição”, temos agora a sanha justiceira de Queluz de Baixo (neste caso baixo mesmo). Hoje, então, foi o máximo. A conversa entre Manuela M. Guedes e a sua acólita Ana Leal é de ir às lágrimas. De riso. Obviamente! Só faltou dizerem: “se estão presos é porque são culpados”. Desde a moca de Rio Maior e das milícias populares de Francelos que não se assistia a tal espectáculo de “mata que é ladrão”.

Isto até nem era muito grave se a maioria da população portuguesa não engolisse tudo o que lhe põem à frente. Até já estou a imaginar a cena: “Ai a Dona Manuela é tão boazinha, a defender as criancinhas. Os advogados é que são uns malvados, a dizerem mal do Senhor Juiz. Benza-o Deus.” Já se sabe como o proselitismo consegue ganhar facilmente adeptos!

A ex-televisão da Igreja decidiu iniciar uma cruzada. Isso é lá com ela. O pior é que as Cruzadas acabaram mal. Depois de derrotados pelos “infiéis”, os cavaleiros de Cristo foram expulsos da Terra Santa. Até hoje.

31 agosto 2003

O jornal que sai ao sábado 

Na minha volta diária pela blogosfera noto que alguns blogs não estão particularmente contentes com o Expresso. Ora são as chatérrimas crónicas do arquitecto, ora são as inéditas manchetes (o Albergue dos Danados tem um excelente texto sobre as “notas com droga”).

Pela parte que me toca – confesso que compro o Expresso todas as semanas – apenas dois comentários: ultimamente é mais interessante saber o que NÃO vem publicado no 1º caderno do Expresso (o silêncio é muito revelador). Sobre o arquitecto há muito que deixei de ler a sua croniqueta semanal. Parece que não perdi nada!

Uma boa notícia 

Depois de dois anos de difíceis negociações – com as multinacionais farmacêuticas e a Administração Bush Jr. a tentarem bloquear o processo – os países membros da Organização Mundial do Comércio chegaram a acordo para que medicamentos genéricos que combatem doenças como a SIDA possam ser vendidos a baixo custo a países pobres.

Basta recordar que só na África sub-sahariana mais de 25 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus da SIDA. A esmagadora maioria não tem acesso a qualquer tipo de tratamento eficaz. Em países como o Botswana, o Lesotho, o Zimbabwe ou a Swazilândia a esperança média de vida anda à volta dos 30 anos (antes do boom desta epidemia rondava os 60 anos!).

Parece que o acordo não é perfeito, mas tendo em conta a situação trágica que atinge estes e outros países é algo que não deve ser menosprezado.

30 agosto 2003

Xiitas e Sunitas 

Depois do atentado de Najaf – a que já me referi num post anterior – parece que o cenário de "libanização" do Iraque tem, infelizmente, pernas para andar. As principais comunidades religiosas (xiitas e sunitas) têm agora o pretexto para se digladiarem.

Quando a religião passar a ser invocada como razão para um conflito não há “voz da razão” que se imponha. Cada lado afirma que está lutar ao lado de Deus e com a protecção Deste. Curiosamente, as guerras entre facções religiosas rivais, mas que professam os mesmos princípios (católicos contra protestantes; xiitas contra sunitas) atingiram graus de barbárie impensáveis noutros conflitos.

No caso do Islamismo, os xiitas tornaram-se num grupo religioso dissidente da maioria muçulmana, de tendência sunita, atribuindo direitos e poderes especiais a Ali (genro do Profeta) e aos seus sucessores. As mortes violentas de Ali e do seu filho Hussein (neto do Profeta), deram-lhes o estatuto de mártires do Islão xiita, algo que irá unir através dos séculos todos os seus seguidores numa espécie de pacto de sangue que justifica todo o tipo de sacrifícios (até a morte, se necessário) como forma expiar o pecado que foi permitir a morte de Ali e do seu filho.

Esta atitude mantém-se até hoje, o que explica determinados actos suicidas de soldados iranianos, xiitas, durante a guerra com o Iraque nos quais sacrificavam a sua vida, não só em nome de Allah mas também por causa do martírio sofrido por Ali aquando da sua morte às mãos de um seu antigo partidário. A mesma história de “sacrifícios” e “martírios” (que não é exclusiva dos xiitas) repetir-se-ia no Líbano e, mais tarde, nos territórios palestinianos.

Apesar de ainda não existirem certezas, algumas notícias apontam para xiitas radicais como autores do atentado de Najaf. O seu objectivo seria calar o Ayatollah Baqir al-Akim (um “moderado” que pregava a cooperação com os americanos) e desequilibrar ainda mais a situação política e religiosa no Iraque. Aparentemente terão atingido os seus objectivos. Concorde-se ou não com a ocupação americana, a verdade é que, num cenário com estes contornos, não há força militar internacional que consiga controlar o que quer que seja. Sobretudo quando essa força internacional é olhada como um exército ocupante que defende princípios pouco claros.

Hillary à Presidência 

A ex-primeira dama e actual Senadora Hillary Clinton parece que decidiu mudar de estratégia. A queda de popularidade de Bush Jr. poderá levar Hillary a candidatar-se à Presidência dos EUA já em 2004, e não em 2008 como tinha inicialmente previsto. Se a mulher de Bill concorrer, a nomeação do Partido Democrata é praticamente garantida.

Considerando os outros candidatos do Partido Democrático, a última coisa que Bush Jr. deseja é ter Hillary Clinton como rival. Apesar de tudo, ela parece ser a única com hipóteses de recambiar o George de volta a Crawford, Texas.

Iraque 

O atentado terrorista em Najaf (capital do xiismo e local onde se encontra o túmulo do Califa Ali) é mais uma tragédia para o Iraque. Mas não é uma simples tragédia. Num país onde a maioria da população é muçulmana xiita, atacar o seu principal símbolo religioso e assassinar o seu líder espiritual (considerado descendente directo do Profeta) equivale a desencadear uma guerra civil. O atentado contra a ONU foi apenas o prólogo daquilo que está(va) para acontecer.

Os prováveis autores deverão ser sunitas, com ligações directas ou indirectas ao regime de Saddam Hussein, que só têm um objectivo. Tornar o Iraque completamente ingovernável e assim expulsar os “invasores infiéis”. Que melhor maneira de o fazer do que provocar um conflito aberto e sangrento entre as duas maiores comunidades religiosas iraquianas. Talvez seja altura de relembrar a carnificina que marcou a guerra Irão-Iraque (xiitas comandados por Khomeini e a minoria sunita de Saddam) e as suas consequências para o Médio Oriente.

A situação no Iraque está mais incontrolável que nunca: atentados terroristas, mortes diárias de soldados americanos e britânicos, insegurança nas ruas. Mesmo com um aumento de tropas parece difícil que os EUA consigam governar o país. Fica-lhes, ao menos, a consolação de que algumas empresas norte-americanos se possam governar a si próprias. Isto se, entretanto, a situação política não explodir de forma definitiva e completa.

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